De tempo em tempo reaparece a história sobre Quentin Tarantino ter planejado desde jovem que se aposentaria após o décimo filme, o que aparentemente o levou agora a uma paralisia. Nenhuma nova ideia de filme lhe serve, pois o cineasta norte-americano deseja um fecho de ouro para sua carreira. Como sempre, o cineasta falastrão é por vezes interessante filmando, mas um desastre quando ele desanda a dar sua opinião sobre qualquer assunto. É engraçado, pois extremamente estúpido por uma série de motivos, mas que Tarantino esteja há seis anos indeciso sobre que filme fazer, já que nada é perfeito o suficiente para servir de um último filme, parece uma punição adequada para tamanha sandice.

Tudo nasce da crença de que cineastas veteranos frequentemente diminuem suas carreiras com filmes tardios de qualidade duvidosa (uma idiotice que vale uma crônica por si só), mas é algo curioso aí que me parece merecer comentário. Se levada ao pé da letra, a ideia sugere que existiria alguma data de aposentadoria compulsória para realizadores, que um Brian De Palma precisaria parar de filmar depois de Snake Eyes (Os Olhos de Serpente, 1998) ou no máximo Femme Fatale (Mulher Fatal, 2002). A ironia seria de quanto mais Tarantino enrola para fazer o tal último filme, mais velho ele será quando o “testamento” for lançado, mais velho do que De Palma quando os filmes mencionados saíram. Só que o etarismo tolo é uma justificativa para algo que me parece diferente e de uma penetração muito maior no imaginário cinéfilo.
Tarantino não fala de idade, mas de um número misterioso: dez filmes. Por trás da crença de que se perde a mão com o tempo, existe a ideia de que seria possível alcançar uma filmografia perfeita e redonda, um corpo de obra ideal. Se passarmos algum tempo em rede social vamos encontrar muitos rapazes que, no fundo, concordam com a afirmação de Tarantino, podem não chegar ao extremo dele, mas passam o tempo a admirara suposta precisão de algum autor que vem como puro, geralmente algum cineasta americano mais ou menos da idade de Tarantino. É um pouco uma consequência da fetichização da ideia de autorismo, do movimento de uma política curatorial/editorial de uma parte dos redatores de uma revista específica para um uma abordagem critica mais generalizada para por fim uma peça de marketing que ajuda a indústria a promover certos realizadores.
Não é exatamente algo novo: quando eu era jovem escutei muito marmanjo se enchendo para elogiar Stanley Kubrick destacando sua recusa a concessões, um idealismo que lhe fazia filmar muito pouco, etc. A distância me parece uma idealização bem pouco realista, Kubrick como qualquer artista que se manteve viável por décadas num espaço muito comercial era menos um intransigente do que alguém muito hábil em operar dentro da indústria. Mas essa ideia ficou e está lá presente em muitos fãs de um Tarantino ou Paul Thomas Anderson, nesses tempos de redes sociais, de forma ainda mais radical. Autorismo sempre teve um pé na ficção, o que importava era menos o Howard Hawks que vivia em Los Angeles do que o “Howard Hawks” que se imaginava e servia de ponto para melhor acessar os filmes feitos pelo primeiro. Quase tudo na economia de cultura de massa hoje existe na direção de intensificar este tipo de relação, daí é um salto para que Anderson aos poucos vire aquele amigo cuja filmografia idealizada precisa ser defendida a qualquer preço.

Um dos problemas disso é que me parece uma forma muito entediante de se pensar os filmes. Nada contra Kubrick trabalhando lentamente no seu perfeccionismo, escolhendo projetos com cuidado e desenvolvendo-os com tempo. Creio que todo artista deva trabalhar da maneira que melhor lhe convém. Como cinéfilo, porém, é bem mais prazeroso observar um corpo de obra que atravesse caminhos tortuosos. Wise Guys (Os Espertalhóes, 1986) é um filme medíocre, mas acho fascinante que Brian De Palma em algum momento resolveu que precisava se manter ocupado rodando um roteiro banal de comédia de gângster oitentista e que a parte de alguns floreios sem impor a “grife De Palma”. Não é sequer propriamente um grande cálculo comercial, Wise Guys não parece especialmente mais promissor do que Body Double (Testemunha de Um Crime, 1984), era um filme extremamente do seu tempo e bem pouco do seu autor, mas nem de longe soa como uma grande fórmula para o sucesso. A obra de De Palma me parece mais rica por incluir fracassos inexplicáveis. O fetiche da filmografia perfeita exclui do artista uma certa humanidade, a permissão não só de errar, mas de promover experimentos diversos.

Um defeito da idealização de autorismo é que ela busca explicar obras e colocá-las num plano onde tudo se encaixa, quando isto é raramente como as coisas funcionam. Este tipo de fã pratica isso de uma forma extrema, existe uma caixa na qual é por bem que o artista se encaixe, a perfeição é também uma prisão na qual não se pode desviar muito deste ideal. A paralisia de Tarantino é o resultado disso, quando abordado de forma prática. Existe uma história conhecida de que Jacques Tourneur se orgulhava de não recusar um roteiro, nenhuma ideia de se a lenda é verdade e não me parece exatamente a melhor das ideias, mas ela expressa a ideia de que para Tourneur tudo era trabalho do qual era possível se extrair algo.
Não sou exatamente um entusiasta do cinema de Guadagnino, mas me parece claro que nossa cultura cinematográfica seria mais saudável se mais realizadores fizessem como ele, e encarassem cada filme como um trabalho do qual esperasse conseguir tirar algo e não uma obra definitiva.
Me parece curioso observar a passagem geracional para chegarmos neste ponto. Nas antigas estruturas de cinema popular, era normal se lançar múltiplos filmes no mesmo ano. Fora da linha de montagem de Hollywood, um diretor como Kenji Mizoguchi também encarava como normal iniciar o projeto seguinte tão logo terminasse o anterior. Mesmo no universo dos autores de cinema modernos do pós-guerra, esta ideia era recorrente. Rosselini estava sempre com múltiplos projetos em desenvolvimento, Fellini nunca negou que um filme como Casanova nasceu de uma encomenda e claro a sempre o exemplo de Jean-Luc Godard que encarava as comissões dos mais diversos investidores com a mesma fome que Tourneur via os roteiros Hollywoodianos, enquanto lhes entregava filmes eminentemente godardianos.

No cinema americano, a geração de realizadores surgidos na indústria entre as décadas de 60 e 70, criados com Ford, Hitchcock e Hawks, isto também era comum. Martin Scorsese é olhado com tanta admiração quanto Kubrick, mas entre Mean Streets (Os Cavaleiros do Asfalto, 1973) e The Last Temptation of Christ (A Última Tentação de Cristo, 1988), ele não iniciou nenhum dos filmes que realizou, o que coincide com boa parte da sua obra mais canonizada. Pelo contrário, Robert De Niro passou a segunda metade dos anos 70 convencendo o amigo de que ele deveria dirigi-lo em Raging Bull (O Touro Enraivecido, 1980) e depois teve que se esforçar para convencê-lo novamente a fazer The King of Comedy (O Rei da Comédia, 1983). Quando Francis Ford Coppola esteve no Brasil para promover The Rainmaker (O Poder da Justiça, 1997) e foi perguntado sobre filmar John Grisham, respondeu que The Godfather (O Padrinho, 1972) também era um best-seller e que The Rain People (Chove no Meu Coração, 1969) e The Conversation (O Vigilante, 1974) eram seus únicos filmes pessoais. Excessos de entrevista de divulgação a parte, é bem verdade que tudo indica que filmes como Apocalypse Now (1979) e One From the Heart (Do Fundo do Coração, 1982) se tornaram obsessões mais do que começaram como tal.
São os realizadores que começaram nos anos 80 em diante para quem o primeiro referente de “autor de cinema” não são cineastas populares do passado, mas os realizadores que desde o princípio da carreira foram vistos e vendidos como autores que parecem ter primeiro se agarrado a esta ideia de um corpo da obra como um projeto cujo cultivo de alguma forma fizesse sentido. A longo prazo, não me parece ser um desenvolvimento positivo.
No extremo oposto de Tarantino está o cineasta italiano Luca Guadagnino. Ele atrai muitos deste mesmo tipo de fã: é um cineasta quente, cujos filmes saem pelas distribuidoras da moda, passam em grandes festivais, são com frequência reduzidos a montagens e memes de internet, etc. A cada dois ou três meses, saem notícias que Guadagnino estaria ligado a um novo projeto, muitos deles nada nobres. É uma compulsão por trabalho, saltar de um projeto a outro, desenvolver 3-4 filmes ao mesmo tempo, etc. Em suma, uma relação com o fazer cinematográfico mais próxima de um “artesão despretensioso” como Tourneur, do que da grife do autor moderno. É fácil notar que existe um incômodo para muitos que o italiano trabalhe assim. Trata-se de um ponto fora da curva e também uma exposição de como a ideia do autor na grande indústria hoje é uma questão de verniz cultural. Não sou exatamente um entusiasta do cinema de Guadagnino, mas me parece claro que nossa cultura cinematográfica seria mais saudável se mais realizadores fizessem como ele, e encarassem cada filme como um trabalho do qual esperasse conseguir tirar algo e não uma obra definitiva. Menos obras, menos obras-primas e mais filmes com suas qualidades e defeitos.
